A imutabilidade de Deus

“Deus não muda”. Esta é uma frase muito repetida entre os cristãos. Acerca dessa afirmativa, recentemente ouvi a seguinte pergunta: Se Deus não muda, porque disse ao profeta Isaías para informar ao Rei Ezequias que iria morrer e, logo em seguida após o clamor do Rei, mudou de ideia e mandou o profeta voltar à presença do mesmo Rei e dizer-lhe que não mais morreria, lhe acrescentaria mais 15 anos de vida”? 

A resposta do teólogo acerca desse fato especificamente me pareceu estranha, pois girou em torno da imutabilidade de Deus; que naquele caso já sabia e favoreceria o profeta ele orando ou não. Que o fato do profeta orar não mudou a decisão de Deus. Uma  inquietude instalou-se em mim, porém, já não havia mais tempo para perguntas a fim de elucidar melhor aquele posicionamento. Esse é o motivo deste texto,  refletir ainda que superficialmente, sobre a imutabilidade de Deus.

Naqueles dias Ezequias adoeceu de uma enfermidade mortal; e veio a ele o profeta Isaías, filho de Amós, e lhe disse: Assim diz o SENHOR: Põe em ordem a tua casa, porque morrerás, e não viverás. Então virou Ezequias o seu rosto para a parede, e orou ao Senhor. E disse: Ah! Senhor, peço-te, lembra-te agora, de que andei diante de ti em verdade, e com coração perfeito, e fiz o que era reto aos teus olhos. E chorou Ezequias muitíssimo. Então veio a palavra do Senhor a Isaías, dizendo: Vai, e dize a Ezequias: Assim diz o Senhor, o Deus de Davi teu pai: Ouvi a tua oração, e vi as tuas lágrimas; eis que acrescentarei aos teus dias quinze anos. E livrar-te-ei das mãos do rei da Assíria, a ti, e a esta cidade, e defenderei esta cidade. E isto te será da parte do Senhor como sinal de que o Senhor cumprirá esta palavra que falou. Eis que farei retroceder dez graus a sombra lançada pelo sol declinante no relógio de Acaz. Assim retrocedeu o sol os dez graus que já tinha declinado (Isaías 38:1-8).

Na teologia Bíblica Deus é descrito como imutável, não há variância em Deus.  No entanto, para alguns teólogos, e veremos muitos deles a seguir, esta característica está relacionada ao seu caráter, quanto à sua natureza, o que inclui ainda, o seu propósito, a sua essência e as suas promessas.  A imutabilidade de Deus é um atributo absoluto que lhe confere a qualidade de não se alterar em sua natureza. Não significa dizer que o Senhor Deus, apesar de ser o todo poderoso, seja impassível ou imóvel. Ele é um Deus que age! A imutabilidade de Deus para nós é uma bênção, ela traz a total confiança em suas providências e essa é a “razão pela qual não somos consumidos” (Ml 3.6). Deus, em sua natureza, não sofre qualquer tipo de variação. 

Biblicamente podemos observar em êxodo 23.19 e 1Sm 15.29, que Deus não muda nos seus planos, nem nas suas ações, porque está firmado na sua natureza imutável. No livro de Salmos número 102.25-27, teremos um contraste que demonstra a natureza invariável de Deus que se relaciona com a ordem criada. Mas em que sentido Deus não muda? Dependendo do ponto de vista que se entende, isso pode trazer grandes danos ao ensino, aos sermões, etc. Alguns teólogos mais influenciados pela filosofia grega do que pela própria bíblia, entenderam a imutabilidade de Deus no sentido de que Ele seria incapaz de agir, seria descuidado e indiferente em relação a ordem criada. A reação de forma exagerada, desenfreada contra esse conceito da visão estática de Deus, resulta igualmente em outra visão distorcida dele. Acreditem ou não, ainda há aqueles pensadores que rejeitam completamente o ensino bíblico acerca da imutabilidade divina. Para estes, Deus está em desenvolvimento a todo tempo e não possui qualquer conhecimento preciso sobre o futuro, esse último entendimento é de chorar, pois, passaram longe da bíblia. Nenhuma dessas visões captam o conceito bíblico quanto a imutabilidade de Deus. 

É fato, a teologia bíblica apresenta Deus como imutável, mas não como um Deus inerte e sim um Deus ativo, que sente emoções e que responde a várias situações de modo diferente. Seja qual for a sua ação, seu sentimento ou sua resposta, Ele é constante e coerente. Observamos que há várias passagens bíblicas que, apesar de Deus ser imutável relacionado à sua natureza, quanto ao seu ser ele é relacional, mutável. Vejamos as seguintes passagens – Ele se arrepende: Gn 6.6; 1Sm 15.11; Jl 2.13; Am 7.3,6; Jn 3.9; 4.2. Muda seu propósito: Ex 32.9-14; Jn 3.10. Fica irado: Nm 11.1,10; Sl 106.40; Zc 10.3. Passagens que demonstram que Deus se afasta do sentimento da raiva: Dt 13.7; 2Cr 12.12; Jr 18.8; 26.3. O problema da imutabilidade verso mutabilidade de Deus parece desaparecer na observação de cada um destes textos. Estes textos apresentam Deus, às vezes, em semelhança com meros humanos, alterando seus propósitos, sem oscilar ou mudar em sua natureza e promessas. 

A título de informação, nenhum dos diversos livros-textos evangélicos de teologia sistemática publicados nos últimos 25 anos apresentam a concepção tradicional de Deus como ser impassível, nem sequer utiliza o termo. É possível perceber uma reformulação com respeito à imutabilidade divina a ideia de Deus como um ser quase imóvel é substituída por Deus cuja natureza é constante, mas também dinâmica, enfatizando a ação de Deus (Erickson, 2015). Para Berkhof (2012), é importante sustentar a doutrina da imutabilidade de Deus contra a doutrina pelagiana e arminiana de que Deus é sujeito a mudança, na verdade não em seus Ser, mas em seu conhecimento e em sua vontade, de modo que as decisões dependem em grande medida das ações do homem; contra a noção panteísta de que Deus é um eterno vir-a-ser, e não um Ser absoluto, e de que o Absoluto inconsciente vai-se desenvolvendo gradativamente rumo à personalidade consciente no homem e, contra a tendência atual de alguns, de falar de um Deus finito, que se esforça e que se desenvolve gradativamente. A imutabilidade divina não deve ser entendida no sentido de imobilidade, como se não houvesse um movimento em Deus, ou que não ocorra mudança nas ações no universo. É hábito na teologia falar-se de Deus como actus purus, Deus sempre em ação. A bíblia nos ensina que Deus entra em multiformes relações com o mundo e consequentemente com os homens e, por assim dizer, vive sua vida com eles. Às vezes, o que parece mudança nos planos de Deus são apenas novas etapas na concretização do seu propósito. O que aconteceu na encarnação de Cristo e também na salvação estendida aos gentios, após a ressurreição, é um bom exemplo de que Deus desenvolve novas etapas na execução de seus desígnios. Ele está cercado de mudanças, mudanças nas relações dos homens com ele, mas não há nenhuma mudança em seu ser, em seus atributos, propósitos, motivos de ação, nem em suas promessas (Berkhof, 2012).

Strong – observando uma  outra forma de pensar 

Deus é perfeição absoluta e não é possível nenhuma mudança para melhor, não se aplica em Deus o conceito de mau ou bom. “Eu o Senhor não mudo”, já citamos Malaquias 3:6. Bowne, Philos. of theism, 146, define a imutabilidade de Deus como “a constância e a continuidade da natureza divina que existem por intermédio de todos os atos divinos como sua lei e fonte” (apud Strong, 2021). Strong (2021), vai contribuir em nosso estudo sob a perspectiva de que nós mudamos e não Deus, podendo explicar as passagens da escritura que parecem à primeira vista atribuir mudança em Deus sob três vertentes:

. Ilustração dos variados métodos pelos quais Deus manifesta sua imutável verdade e sabedoria na criação – a imutabilidade de Deus não é mesmice, mas sim, impossibilidade de desvio por um fio de cabelo do curso, que é o melhor. Argumenta que o homem de grande força de caráter está continuamente achando novas ocasiões para manifestação e a aplicação do princípio moral. Em Deus a consistência infinita se une à flexibilidade infinita. Não há nenhuma impassibilidade infinita com férreos limites, mas uma originalidade infinita nele. 

. Como representações antropomórficas da revelação dos imutáveis atributos de Deus nas mutáveis circunstâncias e variadas condições morais das criaturas – Gênesis 6.6 “[…] arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem” – deve ser interpretado à luz de Números 23.19 “Deus não é homem para que minta, nem filho do homem para que se arrependa”. Do mesmo modo 1Sm 15.11 com 15.29. A imutável santidade de Deus quer que ele trate o ímpio de modo diferente do justo. Quando o justo se torna ímpio, o seu tratamento para com ele deve mudar. O sol não é inconstante ou parcial porque derrete a cera, mas endurece o barro; a mudança não está no sol, mas nos objetos sobre os quais ele brilha, afirma (Strong, 2021). Descreve de modo antropomórfico a mudança no tratamento divino para com o homem, como se a mudança se operasse em Deus; existem outras passagens em conjunção perfeita com a primeira que foi dada para corrigir qualquer possível falsa interpretação. As ameaças não cumpridas como em Jonas 3.4,10 devem ser explicadas por intermédio da sua natureza condicional. Daí a própria imutabilidade de Deus torna certo que o seu amor se adapta a cada modo variante ou condição dos seus filhos, na direção dos passos deles, a simpatia para com as mágoas, respostas às suas orações.  Deus responde mais rapidamente que o rosto materno muda diante do seu bebê. “Deus é, dentre todos os seres o mais delicado e infinitamente sensível”(Godet, em The atonement, 338. Apud Strong, pg. 454, 2021). 

A imutabilidade de Deus não é a da pedra, que não tem experiência interna, mas como a da coluna de mercúrio, que sobe e desce a cada mudança de temperatura no meio ambiente. Quando o homem anda na bicicleta contra o vento em torno dele e vai como vento em vez de ir contra ele, parece que o vento muda, apesar de que está soprando exatamente como antes. O pecador que luta contra o vento da graça preveniente até parece lutar contra um muro de pedra. A regeneração é uma conquista da nossa vontade por Deus por meio do seu poder e a conversão, é a alteração e obra com Deus em vez de contra Deus. 

A primeira luta de Jacó com o anjo é um quadro da vontade própria da sua vida, em oposição a Deus; sua subsequente luta em oração é o quadro de uma vontade consagrada, operando com Deus (Gn 32.24-28). A impressão que se tem é que conquistamos Deus, mas a realidade é que Deus nos conquista. Tem-se a impressão de que Deus muda, mas nós é que mudamos. 

. Nesse ponto, embora já discorremos no início deste texto, podemos analisar sob novos aspectos quanto ao fato de que não se deve confundir imutabilidade com imobilidade. A verdade é que isso negaria toda a vontade imperativa de Deus por meio da qual ele entra na história. As escrituras nos garantem que a criação, os milagres, a encarnação, a regeneração são atos imediatos de Deus. A imutabilidade é consistente com a atividade constante e a liberdade perfeita. A abolição da dispensação mosaica não indica mudança no plano de Deus; em vez disso é a execução do seu plano. A vinda e obra de Cristo não foram um súbito expediente paliativo, para remediar falhas imprevistas no esquema do Antigo Testamento: ao invés disso, Cristo veio na “[…] plenitude dos tempos” (Gl 4.4) para cumprir o “conselho” de Deus (At 2.23). Gênesis 8.1 “[…] lembrou-se Deus de Noé = interpondo, por intermédio de um ato especial a favor do livramento de Noé, mostrou que ele se lembrava de Noé. Apesar de nós mudarmos, Deus não muda. Não há volubilidade ou inconstância nele. Onde nós o encontramos, continuamos ainda encontrá-lo, como Jacó em Betel (Gn 35.1,6,9). A imutabilidade é uma consolação para o fiel, mas um terror para os inimigos de Deus.

Considerações

Há uma visão quanto a imutabilidade de Deus que se refere apenas à sua essência, sua natureza, mas não em sua “existência”. Deus não é imóvel quanto a sua “existência”, portanto, ele é um ser relacional e que desde a criação do homem, interage.

Em Gênesis 3. 9 – 12, percebemos o seguinte diálogo entre Deus e o homem:

E chamou o Senhor Deus a Adão, e disse-lhe: Onde estás?E ele disse: Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me. E Deus disse: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses? Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi”.

Significa que Deus fala com o homem, se as vezes se cala, é segundo a sua soberana vontade/ sabedoria/ necessidade. Ainda, sobre a ótica do Deus imutável, mas não imóvel, rígido, o seu arrepender não se entende em semelhança com a visão humana limitada e, muitos menos se interpreta no viés de um ânimo doble. Seu arrependimento diz muito de sua compassividade, misericórdia e Graça. Essa é a imutabilidade pela qual não somos consumidos.

Por outro lado, para você que perseverou na leitura até aqui, compartilho que, a mudança de uma sentença do supremo juiz, depende muito mais do sentenciado do que do sentenciador, no caso em questão. No exemplo do sol sobre a cera e sobre o barro – a matéria exposta ao mesmo calor determina o resultado da ação deste sobre ambos. Um coração quebrantado Deus não desprezará. Acontece que o ser humano ignorou os mandamentos de Deus e se achou dono da sua própria vida, detentor de todo conhecimento e da razão. É como ir contra o vento. É como se aproximar do sol – mais forte será o vento; mais quente ficará o sol, que serão imutáveis naquilo que é, e em cada tipo de pessoa, sob as mesmas ações, sentirão resultados diferentes.

Por outro lado, o ser humano que permite ser moldado por Deus, sofre a ação do oleiro, a remodelação, a dor de ser transformado/ moldado, mas também sabe que está nas mãos firmes de um artífice experiente, mãos de amor, que não o deixará sofrer além do necessário para ser perfeito. Essa é também uma outra ótica que após verificar esses estudos, de forma simplória, reflito com vocês. Deus é imutável, mas nós podemos ser nas mãos dele transformados em bençãos ou maldição.

BIBLIOGRAFIA

Berkhof, Louis. Teologia Sistemática, 2012; ed. Cultura Cristã.

Dicionário Bíblico Ilustrado Vida Nova, 2018.

Erickson, Millard. Teologia Sistemática, 2015; ed. Vida Nova.  

Strong, Augustus Hopkins. Teologia Sistemática, 2021; ed. Hagnos.

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