Espiritualidade: Religiosidade e a Psicologia

A religião exerce um papel fundamental na formação e no emocional cognitivo da pessoa. O pensamento cristão é o fator influenciador dos povos e fundamental para o desenvolvimento da humanidade (Wanderley, 2019; apud Souza, 2016). Essa análise parte dos estudos realizados pelo Padre Leonel Franca acerca da importância da fé e dos ensinamentos dos princípios cristãos para o crescimento da pessoa humana seja nos aspectos pessoais ou sociais. 

Nesse contexto, a religião não pode ser ignorada visto que “constitui uma das expressões mais antigas e universais da alma humana” (Jung, 2012). Para Jung, “todo tipo de psicologia que se ocupa da estrutura psicológica da personalidade humana deve pelo menos constatar que a religião, além de ser um fenômeno sociológico ou histórico, é também um assunto importante para um grande número de indivíduos”. A compreensão de alguma coisa, se observamos o pensamento de Jung, está exatamente no olhar que ultrapassa o que é empírico e, nesse sentido, é necessário haver uma reflexão sobre a experiência, para que aconteça uma assimilação de todo o contexto. 

Religião para Jung está no conceito de Rudolf Otto, onde é entendida como “uma existência ou efeito dinâmico não causados por um ato arbitrário”. O efeito se apodera e domina o sujeito humano, mais sua vítima do que seu criador. Este efeito chama-o de “numinoso” e, seja qual for a causa, este numinoso é constituinte do sujeito, e “é independente da sua vontade” (Jung, 2012).

A relação da psicologia, religiosidade, e a espiritualidade, está intrínseco no ser humano que, naturalmente se pega envolvido dessa necessidade, para que este possa ser avaliado em suas crises existenciais enquanto ser social, como um alguém que deva ser assistido por completo. 

Quando falamos de fé, está atrelada a um pensamento organizado que se expressa numa coerência, procurando estabelecer objetivos ainda não alcançáveis, mas, seguramente esperançosos baseada na capacidade de acreditar no ato de que vai acontecer. A fé ainda pode ser observada na espectativa de coisas metafísicas e nesse aspecto que encontramos a espiritualidade e, consequentemente, a religiosidade. Toda religiosidade tem seu deus. No caso, a fé cristã não é diferente, ela molda grande parte dos seres humanos no mundo e estabelece assim como outras crenças, o seu manual. Esse manual objetiva o estudo sobre o seu Deus, que originado do grego significa “theos” (deus, termo usado no mundo antigo para denominar seres com poderes além da capacidade humana) + “logos” (palavra que revela), por extensão “logia” (estudo), nasce o termo Teologia.

Relação com a Psicologia

Inferimos que a teologia se volta para estudar a fé de uma religião específica, no caso o Cristianismo. Já na religião está o estudo do fenômeno religioso e sua relação com as diferentes ciências, como Filosofia, Antropologia, Psicologia, etc. Estabelecido o parâmetro religioso e seu estudo, que relação pode haver, no campo dos estudos, entre a teologia e a psicologia? Não é uma tarefa fácil para aqueles que se dedicam a explicar. Atualmente são grandes os desafios que cercam as igrejas. Cada vez mais seus integrantes apresentam crises pessoais como, perdas, problemas psíquicos que não podem ser ignorados e com altos níveis de complexidade, que exige do pastor, do seu líder o discernimento teológico que o confere, a fim de identificar que instrumento de reestruturação da pessoa deverá usar. 

Uma das vertentes da psicologia que mais depreende essa relação psicoteológica, podemos vê-la na logoterapia de Viktor Frankl. Frankl, relaciona os estudos da psicologia com a teologia buscando salvar o ser humano do desespero, apresentando o desejo de alcançar o significado inerente à humanidade. Nesse sentido, se esvazia do determinismo biológico de Watson e de Freud, bem como, pensa fora do otimismo humanista de alguns neofreudianos e das psicologias personalistas, como Rogers. Daí por diante passamos a compreender também que, no pensamento religioso cristão, o homem não pode ser visto apenas nos aspectos biológico, psicológico e social (aspecto denotado pela psicologia). Concomitantemente, é necessário considerar que o ser humano possui uma natureza suprema chamada espírito” (Lopes, 2021).

Segundo Lopes (2021), em seu livro “Psicologia Pastoral: a ciência do comportamento humano como aliada ministerial”,  a antropologia cristã se desenvolve por meio de três definições, a saber: 

  • O espírito está relacionado à comunhão com Deus. Sendo considerado a parte essencial do ser humano, que o diferencia dos animais, capacitando a ter comunhão com Deus. Considera nesse ponto que a comunhão com Deus é fundamental para a saúde mental e espiritual. 
  • Alma, está ligada a fatores psicológicos e sociais (emoções, vontade e intelecto). Para o autor, na alma, está o princípio da personalidade, incluindo os sentidos e as emoções. 
  • O corpo, nele, concentra-se os fatores biológicos onde percebe-se os cinco sentidos pelos quais exploramos o mundo ( visão, audição, olfato, paladar e tato). Considera ser a parte física do homem que o faz ter contato com todas as outras criaturas vivas através da alma. 

A psicologia na Igreja

Assim como acredito ser indispensável a capacitação teológica para o pastor na igreja, uma vez que esta o ajudará a discernir as intervenções naturais, físicas e biológicas, portanto patológicas, daquelas inegavelmente espirituais. Porém, é indispensável também ao líder religioso, além da capacitação teológica, ter o conhecimento sobre o comportamento  e a personalidade humana para que possa lidar com as questões emocionais. Quando essa junção acontece, será possível ao pastor, líder ou conselheiro, estabelecer uma avaliação do problema apresentado como um todo. Nesse aspecto, é possível a psicologia contribuir para com a teologia, causando uma assertiva maior.

É preciso, no entretanto, haver humildade em ambas as partes e, perceberem que sem observar os aspectos teológicos do homem como ser também espiritual e que fatores patológicos podem ser resolvidos cientificamente, elas sempre estarão fadadas à incompletude. Pode ser que a teologia ao seu objetivo final, não seja dependente da psicologia, mas incompleta, se não observado o fato de estar a serviço de Deus, para servir ao homem natural. O ser humano é alguém que abrange uma complexa cadeia de relações que não podem ser resolvidas somente no campo da espiritualidade. Para tanto, a verdadeira teologia não é só espiritual, antes, é social, biológica e psicológica também.

Com efeito, a teologia não precisa das técnicas psicológicas para a cura e libertação do indivíduo, na verdade ela é esse efeito. Neste aspecto, é completa. É bem perceptível que nem sempre os efeitos da ação teológica trará cura ao paciente patológico, mas tal questão não é limitante à obra da espiritualidade e fé. Todavia, devido aos problemas espirituais, os procedimentos psicológicos certamente encontrarão seus limites para solução desses fatores.  Ainda assim, deve haver uma significativa flexibilização de ambos os pensamentos, eliminando as diferenças e tentativas de anulação de uma à outra. Seria necessário quebrar tabus, fazendo com que não seja preciso cristianizar ou  demonizar a psicologia e, por parte dessa última desconsiderar fatos históricos e intrínsecos na vida do ser humano que se viu implícito em tamanha necessidade e, por fim, apenas compreender o papel de cada um a serviço da humanidade. 

A psicologia não substituirá a teologia que possui seus preceitos bíblicos, portanto, eternos, absolutos e incontestáveis. A teologia também não será capaz de substituí-la. Segundo Lopes (2021), 

Por meio da psicologia podemos compreender a nós mesmos e as pessoas com quem nos relacionamos, pois ela faz com que enxergamos nosso interior, fazendo-nos compreender por que reagimos a uma determinada situação. 

Nos mostrar como lidar com as frustrações, o combate aos medos, aos estresses e à depressão, podem ser aspectos notados na psicologia, porém, é inegável que esta percepção seja atribuída também à teologia cristã bíblica. Este é mais um ponto congruente entre ambas. Se cruzam ajudando nos relacionamentos interpessoais, na harmonização dos relacionamentos familiares, com amigos, colegas, superiores e subordinados hierárquicos e, também, para melhorarmos o nível de convivência com vizinhos, comportamento no trânsito, na melhoria da qualidade de vida e assim sucessivamente.

Em suma, a psicologia nasce no que é terreno e limita-se aos fatos empíricos inerentes ao ser humano de forma natural e limitante. A teologia nasce de uma necessidade impensada, absorvida involuntariamente acerca do que é transcendente, transpassa para um plano além do social e biológico, chegando ao espiritual. Para muitos segmentos psicológicos, tudo é lógico e termina na morte. Já para a teologia, a morte é o começo de tudo. Nesses dois pontos não se convergem. 

Referências Bibliográficas: 

Wanderley, Daniel Felipe Silva. A teologia em Diálogo com as psicologias entre os séculos XIX e XXI. Ed. CRV, 2019.

Lopes, Jamiel de Oliveira.Psicologia Pastoral – A Ciência do Comportamento Humano como Aliada Ministerial. Ed. CPAD, 2021.

Frankl, Viktor E. Em busca de sentido. Editora Vozes, 50ª edição; Editora Sinodal.

1 Comentário

  1. Blog Gabinete Teológico disse:

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