TEXTO – O Sacrifício está Além do Brilhantismo Intelectual



Escutei uma conversa de corredor por esses dias. Um pai falando de seus dois filhos, dizia: 

“Tenho um casal de filhos: uma menina de 13 e um menino de 10 anos. Dei de presente de Natal para minha filha dois livros que ela pediu; ela é “metida”(falava do pai) a ser leitora e com orgulho sustenta a fama. Meu menino porém, fica na dele, afirmou. (Não mencionou o que deu ao garoto de Natal) – continuava… só que enquanto minha menina leva a fama, quem é o leitor mesmo lá casa é meu menino (risos). Minha filha ficou feliz com a chegada dos livros, cheirou, desfilou pela casa e os guardou. Num dia desses, de repente , vejo ela esbravejando com o irmão dela. Ao procurar saber do que se tratava, descobri que ele havia lido os dois livros em uma semana, que havia dado a ela”. 

Esse senhor que eu ouvira no corredor está bem, pois possui um filho leitor e uma filha bibliófila (kkk) – ela chega lá! O importante, a priori, é estar em contato com a literatura. Mas, a história escutada me pegou. Fiquei pensando e empenhei em escrever para vocês sobre, no intuito de nos inteirarmos um pouco mais a respeito da leitura e dos leitores no Brasil. Embora aqui o assunto discorrerá de forma acanhada, devido a complexidade e a vastidão que o tema necessita e abrange, é importante que aquele que se interessar busque aprofundar encontrando referências a respeito.

Durante algum tempo tenho me perguntado sobre o que é preciso para se ler mais, quais as características de um leitor. Recentemente, por meio do Instituto Pró-livro, que realiza pesquisa nesse segmento desde o ano de 2007 e faz um retrato  da leitura no Brasil, pude analisar dados de 2015 a 2019, na apresentação da 5ª edição da pesquisa com dados até Janeiro de 2020, portanto, antes da pandemia, revelando dados significativos para o nosso assunto.

Como princípio, considera leitor a pessoa que leu pelo ao menos um livro todo, num período de 3 meses; como resultante, percebeu que 52%  não leram um livro completo e 31% conseguiram concluir sua leitura, ou seja, leram no período de três meses um livro completo. Para a pesquisa, esse é o leitor brasileiro e, sendo assim, estima-se que há aproximadamente 101 milhões de leitores em todo Brasil. Outros dados que foram possíveis de verificar é quanto ao público leitor, onde 52% são mulheres; 48% homens. Segundo dados apresentados, as crianças leem mais que os adultos, ou melhor, o maior público leitor está entre as crianças entre 5 a 10 anos de idade, segundo a pesquisa.

À partir dos 14 anos nota-se maior queda estatística de leitores. Claramente, os fatores que levam a esse declive, podem ser justificáveis ou não; neste caso existem fatores externos e específicos, além de públicos/ econômicos. Fatores individuais patológicos também contribuem para a queda no hábito de ler. Mas a justificativa do maior público leitor ser criança, a pesquisa deverá verificar que os fatores externos e específicos para esse maior público leitor, estará atribuído aos primeiros contatos com a leitura ou ainda, ao incentivo dos pais, e quem sabe o próprio aprendizado introduzido no ensino fundamental I, dentre outros. No entanto, precisaríamos analisar também um possível processo seletivo natural de queda na leitura, que poderá advir à medida que essa criança avança em seus estágios operacionais e à medida que adquire maior autonomia. Assim, uma vez que, os pais já não leem juntos com tanta frequência, e no ensino fundamental II o incentivo escolar à leitura já atinge o outro viés na cobrança e de forma mais deliberada, então, aquele que adquiriu o gosto por ler, desenvolveu o hábito e continuará; assim como àquele que por diversos motivos não deu continuidade à tais práticas, se aventura e segue sua rota para aquirir outros conhecimentos, ou buscá-lo de outras formas. 

Não se pode deixar de registrar que um outro fator influenciador no hábito de ler e fundamental, são as políticas públicas voltadas para esse aspecto de incentivo à leitura. Segundo dados demonstrados pelos organizadores do Instituto Pró-Livro, de 2015 a 2019 houve uma perda de 4,6 milhões de reais em investimento nesse ponto, que contribuiriam para o incentivo e democratização do acesso; à necessidade de criar mais reforço para leitura como bibliotecas e melhores programas de formação. 

Para conhecimento, vejamos alguns índices de leitura por região no Brasil, com dados comparativos de 2015 a 2019, conforme  o Instituto Pró-livro:

Leitores por Região 

Norte

Nordeste

Oeste

Sudeste 

Sul 

 2015 – 53%

 2015 – 51%

2015 – 57%

 2015 – 61%

 2015 – 50%

 2019 – 63%

2019 – 48%

 2019 – 46%

 2019 – 51%

 2019 – 48% 

Como se sabe, a prática, o hábito de leitura exige, do “consagrado” ao ofício de leitor, um exercício físico e psíquico que demanda tempo, persistência e prazer. Anteriormente podemos perceber que crianças incentivadas por seus pais tende a desenvolver o hábito e gosto por práticas literárias, o que permite acreditar que essas serão mais propensas a perpetuar o hábito, claro que não necessariamente o tempo todo ou a vida toda e de uma forma frenética. Contudo, não significa que aquele que busca tal nobre ofício ou se depara com a beleza da leitura, não possa independentemente da idade ser um leitor voraz.

Mesmo que os dados da pesquisa de justificativas para o não hábito de leitura que se apresenta aqui tenha sido realizado especificamente em crianças de 5 a 10 anos de idade, podemos considerar de alguma forma que, guardadas as devidas diferenças nas porcentagens, não deverão variar de forma exorbitante as justificativas dos adultos. Segue os dados verificados em crianças de 5 a 10 anos:

Não ter Paciência: 1% 

Falta de tempo: 7%

Ter dificuldade: 2%

Não gosta de ler: 8%

Preferem outras atividades: 5%

Não sabe ler: 65%

Pode ser que algumas pessoas achem bonito o fato de simplesmente dizerem que são leitores, achem elegante, intelectualizado e, devo concordar com o professor Leandro Karnal, em um vídeo que assisti cujo o nome não me recordo, onde o professor afirma que em muitos casos, as “leituras dessas pessoas são rasas”, contudo, acrescento que embora possa haver uma superficialidade em muitos, ainda assim já é melhor do que não se interessar por leitura alguma. No caso, melhor que achar bonito o ato de ler, ver alguém desenvolvendo o hábito da leitura é lindamente mais bonito.

Quando é mencionado o ato de ver, me refiro a dois sentidos: ao próprio ato, que é estar em qualquer lugar, seja público, na fila, no ônibus, em praça pública, consultórios. É aquele momento em que ficamos esticando o pescoço para ver que livro aquela pessoa está lendo. No meu caso em particular, a pessoa com um livro na mão já se torna interessante em algum aspecto 😁. O outro sentido do ato de ver, está relacionado com o prazer, com o contentamento de se jogar no livro que te chama à atenção, está relacionado com aquele texto ou aquela frase que se tornou chave para o seu momento, seu dia, sua vida; no entanto, está ligado ao bem sublime da sensação de ter concluído um livro do começo ao fim. Se relaciona com a luta e a ansiedade para não ir diretamente ao final, o deleite de ver as páginas de um calhamaço lida uma a uma, ver e vencer o tempo e a distância da chegada cujo a espera é aliviadas com um bom texto, e assim, ver findar a última página, mesmo com o gostinho de quero mais, ver é toda a magia do livro, isso é prazeroso. 

Por fim, pensando sobre o leitor, é compreensivo que compramos mais livros do que lemos. A oportunidade é a economia no bolso do leitor e a chave para não falir. O leitor por sua vez, é antes de tudo um bibliófilo que de tanto amor pelos livros os devora em conteúdo. O leitor de fato tem algo a mais. Não é apaixonado só pela capa, o cheiro das páginas, nem pelo simples fato de se sentir bem com o livro nas mãos ou na mochila, ou com o formato e a arte literária. Ainda que seu livro seja digital (touch screen), ainda assim ele é bibliófilo, porque para além do tato nas páginas em suas diversas texturas, a trama e a organização das palavras, independente da tecnologia, o conhecimento produzido pelas letras, faz do leitor um ser, cujo sacrifício está além do brilhantismo intelectual – é um estilo de vida, é um prazer. 

Seja bem vindo, se permita ser um leitor, viajante constante para um mundo particular, que é só e todo seu.

Referência dos gráficos:

https://www.prolivro.org.br/wp-content/uploads/2020/12/5a_edicao_Retratos_da_Leitura-_IPL_dez2020-compactado.pdf

Boa semana!

@welllivros

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